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Abrindo o Livro de Cabeceira
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Friday, June 26, 2009 acho bem curioso o colar de chuva ter se espatifado também-kikks 2:55 AM
em um dado momento, eu jurava que era o mar
-kikks 2:12 AM
que a rua seja varrida e os restos não se sedimentem
-kikks 2:11 AM
o que restou das cinzas foi-se pela janela mesmo vinte graus e promessa de tempestade (alguém tem de chorar) -kikks 2:08 AM
-kikks 1:09 AM
-kikks 1:04 AM
fragmentos
-kikks 1:04 AM
Sunday, June 21, 2009 uma amiga me perguntou ontem qual era o critério para escolher onde eu escrevia. minha resposta foi "o mais prático". se estou na rua, é o caderno que tá na bolsa, se não tem caderno, qualquer pedaço de papel. se estou na frente do computador, escrevo no blog. se estou andando — e parar para escrever bloqueia o fluxo dos pensamentos —, tento gravar de uma certa forma o que passeia pela mente, não para descrevê-los com fidelidade, mas para desenvolver depois.mas, quase chegando em casa (ainda sem ter pisado na rue de Solitaires), me dei conta da velocidade da escrita acompanhando os pensamentos (espontâneos ou guardados), e se não é o gravador (atualmente quebrado e usado para esses fins raríssimas vezes), é o computador. até porque ele ordena um pouco mais o que se processa internamente (e abro um outro parêntese, imaginando como se fazia na época da máquina de escrever, e como eu fazia, porque eu também fiz, não por muito tempo, mas fiz, e isso me conduziu às reflexões de Sherry Turkle sobre como a tecnologia tem modificado nossa maneira de ver o mundo, pensar sobre ele, senti-lo). e, sentando no computador, me dei conta de que o critério — ou a falta de — é simplesmente a urgência, significativa em vários aspectos da minha vida hoje, não tão inconsequente quanto antes, mas no sentido de impulso criativo e de viver a vida, até mesmo quando ela me guia para a paciência. ... apesar de ser domngo, 21 de junho, dia oficial da Fête de la Musique, e de ter muito sol do lado de fora, optei por ficar em casa, me livrar de uma caixa de papéis que têm quase o meu peso (e não cheguei a completar 3 anos em Paris) e ajeitar os meus diários, minhas cerâmicas, minhas memórias (de novo, Sherry Turkle, evocative objects, que tava há tempos separado aqui na minha barra de links). no meio desse turbilhão de papéis, me vejo parada três horas deitada em um sofá lendo Danuza Leão. mais memórias, que nem minhas são. chega a ser quase engraçado como Danuza pega um avião para Paris em momentos de crise, com ou sem grana no bolso, quase com a facilidade dos personagens das novelas de Glória Perez que desembarcam em países como Marrocos ou Índia com a mesma cara de pau de quem pega uma ponte aérea Rio-SP. se alguém me contasse isso em vez de ter descoberto isso lendo, diria certamente com preconceito, que Danuza é uma perua louca que resolve seus problemas tomando uma taça de champanhe em Saint-Germain. Danuza pode ser uma perua louca que toma champanhe em Saint Germain. e que tem uma consciência absoluta da sua relação com a cidade, onde teve um primeiro contato com a liberdade, algo central em sua existência, e para onde foi sempre que se sentia um pouco sem rumo. foi em Paris que ela terminou de escrever este livro. ... depois de horas no sofá lendo Danuza, sem pensar na caixa de papéis para jogar, nas outras caixas que pedem para ser arrumadas, a poucos passos da rue de Solitaires, fiquei me indagando por que então eu não ia passear pela cidade, aproveitar o domingo de sol em Paris, ver amigos, fazer um picnic ou uma longa caminhada. então me dei conta deste trajeto que fiz por tantos dias já sem prestar atenção em detalhes, com medo, com frio, com a alma vazia, com sono, sozinha ou acompanhada, cansada, com vontade de fazer xixi, rindo, chorando, gargalhando, de carona, a pé, me arastando, sonâmbula, é quase uma rota de peregrinação de tão emblemático para mim. minha pequena Paris dentro de Paris. era onde eu queria estar. sempre no meio dos passos, interrompidos por assédio, por assalto, pelo vento cortante, por medo ou qualquer outra coisa, eu pensava na diversidade dos estados de alma. eu sempre penso isso quando sei que vou partir para algum lugar e que vou passar dias sem pisar neste asfalto. então me dei conta que há várias portas verdes na cidade e que elas não são pintadas desta cor porque saíram assim nas revistas de decoração. deve até existir uma explicação oficial para isso (sempre há), mas eu não me importo. vou querer uma porta verde (e pesada) na minha mente, onde possa encostar meu corpo, inclinar a cabeça um pouco para a esquerda, olhando para o alto, apoiada em um pé ou dois, fumar um cigarro, tomar uma taça de champanhe e saber que se trata apenas de um encontro comigo mesma. -kikks 3:29 PM
Monday, June 15, 2009 é bem besta, eu sei, mas eu descia a rua toda orgulhosa, puxando a mala cujas rodas se amaciavam ainda mais com a umidade da chuva, encontrando muitas caixas, envolvendo muitas pilhas de papéis com papelão e fita adesiva. imaginei todas elas atravessando um grande oceano, letras se embaralhando, unframed, borradas, dançando e demorando tanto tempo para chegar em algum outro lugar. como se eu também estivesse embarcando com a bagagem. há um medo da fragmentação que rasga a alma em mil pedaços. mas também há a sensação de sair de viagem a cada dia. a cada dia enfrentar o mar. naufragar. voltar. partir. viajar. |
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